Ser pai nos dias de hoje 1
Antigamente o papel dos pais era muito ingrato. Começava na gravidez. Expulso da sala de parto, exilado para corredores longínquos dos hospitais, o pai tentava em vão disfarçar a impaciência fumando cigarro atrás de cigarro. O remorso invadia-o. Apurava o ouvido de cada vez que a “balada dos condenados” o fazia aproximar-se da porta, “atrás da qual se passa qualquer coisa”. Hoje o homem participa no nascimento dos seus filhos. Ouve da mesma maneira o primeiro grito do recém-nascido. O nascimento, aos seus olhos, deixa de ser um acto animal para ser o que na realidade é: um acto sublime. Tal como sublimes são os actos seguintes, a educação do quotidiano, os bons e os maus momentos.
Foi a psicologia moderna que primeiro levantou a lebre: no quotidiano familiar, os pais, e não apenas as mães, devem participar no quotidiano dos filhos. A reportagem de capa desta edição da GINGKO é a prova de que os pais não só têm seguido o conselho dos psicólogos como se incumbem de tarefas que antes eram exclusivas das mães, como levar os filhos à escola, comparecer às reuniões de pais, acompanhá-los em consultas médicas e, claro, trocar fraldas – isto apesar de os fraldários se encontrarem, na grande maioria dos casos, e incompreensivelmente, dentro das casas-de-banho das mulheres!
Mas ser pai é um assunto que aparece pouco nas manifestações culturais e nas dissertações dos estudiosos. Há uma infinidade de filmes, livros e músicas sobre ser mãe, para não falar na quantidade de pinturas de mulheres com crianças ao colo expostas em museus. Mas raras dão atenção à paternidade, às dúvidas e delícias da vida de pai. Fala-se sempre que a relação maternal é mais intensa, umbilical, mas é urgente que seja dada ao pai o mesmo direito de exercer a sua paternidade plena. A questão que se coloca é a seguinte: como é que uma experiência tão intensa como ser pai continua a ser relegada para segundo plano?
Não deixe de ler a reportagem de capa da GINGKO desta edição e aceite outra sugestão: leia o livro de Paul Aster, Invenção da Solidão, em que o escritor narra, com admirável sensibilidade, memórias do seu pai e descreve a sua própria experiência como progenitor. Veja também o filme O Quarto do Filho, de Nani Moretti, sobre o mesmo tema. Não tenho dúvidas que este é um tema crucial dos nossos dias.
Ana

Realmente, ser pai é das melhores coisas do mundo. Deixo aqui uma das minhas impressões: http://www.pauloadriano.com/blog/?p=509